quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Paixão (Em 09/06/2006)

A paixão tem origem em uma energia retida, no organismo, e acelerada por estímulo externo. Normalmente essa energia é acumulada na primeira idade, quando a criança é vítima de: tombo, susto, constrangimento, violência; são agentes causadores de retenção de energia em alguma parte do corpo. Ali é o calcanhar de Aquiles.

Comentei, em outra parte, o quanto essa energia retida causa de doenças; uma outra atividade dela é a de acelerar um metabolismo particular, de acordo com o estimulante externo. A energia retida, quando se agita, pode intumescer a tireóide; a pessoa perde, por segundos, a respiração e, afogada, na rapidez de um relâmpago, é capaz de cometer os mais desvairados tipos de agressão. Resulta daí a expressão ”eu não sei por que fiz isso”.

Há também os casais apaixonados; eles estão sob o impulso da mesma energia, porém, instintivamente desviam o foco: a energia se concentra no pólo de suas sensações; ali ela se manifesta por uma espécie de queimação que os torna incontroláveis, na busca de fazer cessar o elã. Nessas situações, a razão se distancia das conseqüências.

Por ser decorrente de um impulso, um casal apaixonado tende à separação porque, cessada a paixão, não há algo mais sólido que sustente a convivência; da paixão resta a solidão.

Muitos são os que costumam se dizer “apaixonados” por música, cinema, futebol, literatura e outras; mas esse tipo de “paixão” é continuo, duradouro; a palavra “apaixonado” aqui é utilizada como força de expressão; apenas quer dar ênfase a um entusiasmo, colocá-lo num grau acima da afinidade. Uma das características da paixão é a impulsividade; é ser momentânea; sem seqüência; a paixão é como uma bolha: incha, explode e se desfaz, como se buscasse consumir a si mesma.

Esse traço de consumir a si mesma permite a alguns comparar a paixão com a serpente oroboros, aquela serpente que se alimenta do próprio rabo; mas alimentar-se é preservar e a paixão não preserva; só se aquieta quando destrói. Os estragos que a paixão faz não são alimentadores porque ela deixa de existir.

No auge de uma paixão, alguém pode ficar tão vulnerável a ponto de receber encosto; aí a paixão dá lugar à danação; essa aparência de paixão sim, pode ser duradoura pela força maior que está atuando sobre a consciência do outro e reluta em se retirar.

A Paixão de Cristo adquire característica diferente porque o ofendido não revida; mesmo assim, a palavra “paixão” não perde a significação de: mudança, passagem da materialização para a transcendentalidade.

Paixão - Complemento (Em 09/06/2006)

A resistência em nossa interioridade se assemelha ao que vemos nas pororocas: as águas do rio se aproximam do mar e são repelidas: por serem doces, entram e conflito com o sal do mar; mas a doçura se impõe sempre: supera tudo e, a água doce percebe em sua individualidade de mistura com um poder muito maior
Uma fonte de paixão neutralizada no nascedouro transforma-se em água doce; seu encontro com a agitação dá origem a vitalidades resultantes de experiências bem sucedidas.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Paz (Em 02/06/2006)

Paz é projeção, reflexos de um mundo em harmonia. A paz está no fundo de um funil para onde convergem todos os silêncios.

A paz está na raiz de uma abdicação; abdicação supõe o silêncio interior; o silêncio interior se faz pelo coração; a paz verdadeira é a que brota de um coração silencioso.

Um estado de paz é forte indicador de referenciais internos que escapam a nossa percepção; um estado de paz comprova a existência de valores instalados nas câmaras secretas de nosso ser; um estado de paz é manifestação da alma, quando são desimpedidos os obstáculos que a mantêm distanciada de nossas aspirações maiores.

Os homens querem a paz, mas dotam os espíritos de trincheiras construídas com esperteza; o espírito, como não tem referencial interno, dá aquilo como verdade, sem saber distinguir entre a bomba e a fé; adota o vício na esperança de paz; mas a paz não alimenta filhos bastardos; a paz não circula por esses becos de mão única.

Há os que buscam a paz no contato com a natureza, nos claustros; mas os ambientes reagem como extensão de uma realidade que habita no mais íntimo de nosso ser; sem lastro de paz, a paz do ambiente cava mais fundo nos destroços de nossas angústias. A paz escapa incontrolável e desliza de mansinho somente pelas esteiras do silêncio.

Se os homens não têm paz é porque perderam o referencial em si mesmos e condicionam sua paz ao empenho alheio, mas a paz não é coletiva; coletivo é o armistício, a trégua.

A paz tem seus coadjuvantes e o principal deles é o direcionamento que damos a nossa mente; a paz preenche o espaço vazio deixado pela mente; enquanto esta se desloca para o coração, a paz assume o lugar vazio e dá um sentido maior a nossa vida.

Paz - Complemento (Em 02/06/2006)

Uns animais entraram numa caverna de muito verde e água fresca; ficaram, procriaram; tempos depois, pretenderam sair, mas os filhotes estavam acostumados à escuridão; não resistiriam à luz.

A caverna é um lugar de paz; mas a paz da caverna é exterior, não basta; precisa de sintonia com a paz de dentro; uma só delas nos leva a procriar a preguiça, a negligência, o tédio.

Esse tipo de filhotes transforma nossa paz num fastígio.

Esforço pessoal - Complemento (Em 26/05/2006)

Com o tempo, a águia tem o bico entortado de tal modo que não consegue segurar a presa; então ela se recolhe a um ponto alto da montanha, bate com o bico na pedra dura até destruí-lo e espera o nascimento de um novo bico; com ele, arranca as unhas e as penas velhas. Em pouco tempo, está pronta para recomeçar.

Você percebe a águia ativando suas latências? Arrancando de si mesma as potencialidades com que formar uma águia nova? Não há nenhum pedido a Deus; apenas a iniciativa de abdicar foi suficiente para conseguir. Se o homem aspira por ser um homem novo, tem de abdicar de suas “roupas velhas”.

O Educador (Em 19/05/2006)

Educador é um profissional versado na arte de arrancar de si mesmo e transferir os frutos maduros de sua ética e de seu saber. Atento aos fluxos interiores, ele intui sobre o modo de alcançar os atributos que dormitam na interioridade daqueles que lhe cabe despertar.

O educador não faz distinção do meio em que atua porque, onde estiver aí estão suas virtualidades disponíveis; ele busca equilibrar os atributos nele mesmo, ao tempo em que atua sobre as latências de seus alunos e os põe a exercitarem-se para atuação no mundo como projeção de um desenvolvimento interior.

O Educador escreve na mente do aluno e o conduz à leitura no coração; o aluno se exercita no trabalhar seus opostos, como investimento de uma prática que conduzirá à conciliação, capaz de projetá-lo por ações conscientes e participações inteligentes.

Já se percebe que o método do Educador é o de se colocar do lado oposto a seu aluno e estabelecer com ele a empatia pela simpatia, de que resulte a conciliação dos opostos porque, quando os opostos se conciliam, uma luz se faz com que iluminar o aprendizado.

Os processos para o caminho da luz passam por um saber seguro e uma postura que não escape à sensibilidade do educando; então o Educador arremessa, acerta e se acerta. Para isso, ele precisa contar com um saber que lhe garanta segurança na transmissão de suas vivências; precisa nutrir a consciência de que é depositário da mesma verdade de que o aluno é portador.

Dos vários métodos em educação, ele se vale daquele que motive os envolvidos em espontânea interação, direcionadas as mentes para um princípio comum no âmbito da cultura.

O educador ideal é mestre de postura; ele é alegre, desenvolto, preciso nas respostas e sobretudo discreto.

O texto está “fora da realidade!” “Os tempos são outros!” Por mais que queiramos um homem sem alma, a alma será sempre um centro de onde promana toda sabedoria; um centro que a perseverança disponibiliza ao Educador lidar com as virtualidades de que todos somos portadores; por ela o Educador alcança sintonia com a intimidade de seus alunos. Quando os alunos perdessem a alma, o educador passaria a ser profissional de recados; os recados de Aristóteles, Jesus, Newton e tantos outros.

“Educador assim vive nas nuvens!” Quem vive nas nuvens está fora de sua realidade; quem está fora de sua realidade não pode ser educador. O Educador moderno é integrado em seu tempo: toma o ônibus e come sanduíche enquanto vai; para ser Educador, e preciso ter os pés no chão, conjugando a realidade de fora e realidade de dentro; assim ele alcança a inteligência e a consciência de seus alunos, preparando-os para a vida e para serem sempre mais sobre si mesmos.

Os “recados” transmitidos pelo Educador, mesmo sobre assuntos de sua área específica, são sempre recheados de conteúdos que levam os educandos a intuírem certa transcendência como marca de um pensador que tem privacidade com a sabedoria.

O Educador - Complemento (Em 19/05/2006)

Passava na floresta com o discípulo; uma casinha pobre, um casal e três filhos subnutridos.

- como vocês sobrevivem?

- nós temos uma vaquinha. Tomamos parte do leite; a outra trocamos por alimentos, roupas.

Logo adiante avistou a vaquinha e ordenou o discípulo:

- Empurra aquela vaca desfiladeiro abaixo

Tempos depois, o discípulo passando pela região, reviu a casa arrumada, pomar, rezes,
- Vocês melhoraram bastante, o que aconteceu?

- nossa vaquinha caiu no precipício e ficamos sob duras privações, sem leite e comida; tivemos de nos virar; nosso esforço resultou no que o senhor vê.

Fica evidente como o Educador se coloca do lado oposto ao educando, se quiser despertar nele valores com que se superar. Atento à interioridade humana, o Educador sacrifica tudo para que o homem desperte suas potencialidades.