quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Fluxos (Em 15/12/2006)

Acredito que não seja idéia minha, quantos teriam pensado assim! O fato é que me ocorreu certa vez a idéia de haver, no inconsciente coletivo, um depósito onde estão armazenadas as grandes idéias que sustentam a História. A esses registros só o espírito tem acesso.

Afirmava ainda o fato de o espírito se esquecer de tudo a que veio quando entra na matéria e que só por ressonância de seus hábitos antigos, ele vai despertando em si mesmo suas aptidões com que atua no mundo.

Assim é.

Essas idéias me voltam quando sei daquele homem. Sim, um homem que, apesar de seus 86 anos, está cursando o segundo ano de um curso oficial correspondente ao nosso Primário. Nesses dois anos, não faltou a uma aula, faz longo percurso a pé, já aprendeu a ler e paralelamente estuda inglês.

A imprensa lhe foi ao encalço.

- eu pretendo fazer a faculdade e ajudar minha família.

Oitenta e seis anos! Tanta edificação assim não dá IBOPE...

De onde vem que esse homem despertou em si essas faculdades?

Seria ele depositário de um ou mais desses pilares da História? Teria a idade amolecido aqueles diques do esquecimento a que veio e que não está podendo conter jatos de sabedoria por se exprimir?

Meu Deus!

Dizem que, durante um ano e meio ele ia constantemente à escola por uma vaga e a conseguiu pelo cansaço da direção.

Essa persistência já nos edifica, mas ele quer mais quer ajudar a família!

Do ponto de vista da idade, é possível entender esses predicados assim tão vivos ainda, ou é preferível ver nele a luz de um saber que pede espaço; quer começar pelo berço, só que no outro extremo, mostrar que, para Deus, não existe o tempo?

Na reportagem, ele canta com as crianças em cujo meio está um neto seu. Nessa idade, quantos já não têm domínio de seus músculos, quantos?

Nele se impõe uma intenção de ser; como a flor que nasce no alto da montanha: quer apenas exprimir-se como um coração aberto; mas é tanta efusão dessa abertura que a notícia se espalha pelo mundo e chega até nós dos confins com a mesma singeleza da flor.

Espíritos assim são em si mesmos grandes luzeiros que vêm a este mundo e não fazem milagres porque eles são o milagre; discurso? Esse faz: “quero ajudar minha família”. Quer expansão de si mesmo, partilhar; e a vontade de assistir os seus nos assiste com seus exemplos; a intenção de servir lhe escapa o controle em borbotões sobre o mundo e sobre nós, como exemplo.

O espírito desse homem esperou que a idade tornasse vulneráveis as paredes do esquecimento; agora pede passagem; queira Deus que irrompa com o firme propósito de ser luzeiro sobre este mundo de tantos apagões.


Fluxos - Complementação (Em 15/12/2006)

Os animais entraram em uma caverna, onde acharam água fresca e comida abundante; ficaram e geraram; certa vez o mais velho desejou sair dali, porém os mais novos tinham nascido no escuro, não se acostumariam à luz.

Também o homem vive em uma caverna, mas ele pode despertar e buscar saída para a luz; alguns o fazem com tanta força que sua voz ecoa pelos quatro cantos do mundo e outros percebem o sentido da luz.

Eis o homem!

Ainda o Ensino (08/12/2006)

Falávamos sobre educação; o quanto a maioria das escolas se afastou da educação, assustada pela interferência impositiva dos pais.

O Ensino se tornou de fachada, de faz-de-conta por interferência, insistência e intransigência de muitos pais. Eles assumem influência de pedagogos e são capazes de submeter o esforço do professor a seus caprichos, via direção.

Não se nega a importância dos pais na escola, como meio de partilhar o andamento administrativo, nada melhor. Não foi este aspecto que discutimos. Nosso assunto se limitou àquela área em que o professor desenvolve suas atividades e apresenta produção; essa sofre obliteração por alguns; e esses alguns contaminam o processo porque o professor, ou se amolda a ela, ou precisa desocupar aquele espaço. Triste realidade...

É transição; mas, nessa transição, o aluno fica transitando pela escola, com a absoluta certeza de que não precisará assumir as conseqüências de sua indiferença. Os pais garantem, tirando ao filho, à filha o imprescindível dever de manipular as próprias virtualidades; cerceando o próprio filho no processo de se desenvolver.

Os alunos do Colégio São Bento, do Rio de Janeiro, foram os primeiros na prova do ENEM de 2005. A imprensa quis saber qual era a mágica; deparou-se com uma informação simples:

- nosso método de ensino é de 114 anos atrás; o aluno que não estudar, perde a vaga.

Têm esses doutos mestres a consciência de que a mente humana não muda; sabem que Educação é isso: cobrar do aluno que desenvolva as próprias potencialidades. Isso ninguém pode fazer por ele.

Quanto mais amparado, menos se desenvolve e a escola passa a criar facilidades para o aluno que deveriam ser conquista sua.

É o exemplo daquela borboleta: lutava por sair do casulo; o menino quis ajudá-la e percebeu depois que algumas partes ficaram atrofiadas; não tinham sido submetidas ao esforço de sair; a borboleta não conseguiu alçar vôo.

Assim é essa juventude protegida debaixo do casaco dos pais: não se desenvolve porque os próprios pais as ajudam no sair da casca; a mente atrofia.

Depois lamentam iniciativas dos filhos que se distanciam de suas previsões...

Educação é a formação integral da pessoa humana. Atualmente um outro mal veio juntar-se ao primeiro: é a utilização maciça da memória.

A memória transita na linha horizontal passado – futuro; acontece que a formação integral do ser humano se realiza na verticalidade: mente – coração; a memória passa distanciada desses dois pólos; este é o motivo por que o aluno se torna insensível, desinteressado, sem iniciativa e tantas conseqüências assim; ele não se sente integrado no processo da própria formação; torna-se um estranho ao próprio estudo; suas potencialidades não são desenvolvidas porque, pela memória, saímos de nós mesmos e nos refugiamos no fato histórico que nada tem a ver com nossa realidade atual. Pobre ensino. Pobre aluno...


Perder a Alma (Em 01/12/2006)

Diversas vezes tenho comentado sobre o coração como lugar de encontro do espírito com a alma; vem um homem simples, lá do interior do Brasil e, por um ideal de fé, e abre uma nova perspectiva no mesmo assunto.

Ele se negou a submeter-se a um transplante de coração alegando “medo de perder a alma”. Nada mais simples; nada mais profundo: preferiu os percalços do sufoco sem respiração até a morte, a abdicar de seus princípios religiosos.

De onde vem esse tipo de pessoa? Seriam ets, alienígenas que nos visitam para nos incentivar nessa vida de tanta sabedoria sem rumo?

Acredito que nunca se viveu tanto excesso de cultura; fala-se sobre qualquer assunto e talvez nunca tenha havido tanta falta de uma liderança em que o mundo possa confiar. É uma apatia geral causada pelo excesso de memória; esse homem vem desafiar os sábios, se ainda houver.

Não sabe que a consciência ocupa todos os lugares vazios, onde quer que os haja; não sabe da alma como é consciência que ocupa o vazio criado por nossa intenção; a intenção de abdicar, de fazer o silêncio interior, de não deixar que o coração se feche nas provocações, não sabe, mas sabe captar a sintonia do cosmos e traduzir as linguagens pela linguagem de sua abdicação.

Se o fundamento é a intenção, o coração novo não alteraria a intenção; mas sua preferência pelo coração velho, fê-lo ampliar o espaço vazio de seu coração doente pela intenção de submeter-se a uma vida de tantas incertezas.

Talvez pela falta de modelo, esse homem assoma em nossa mente com a força de um ator da tragédia grega, entre luz e sombra, com vestimenta de um estranho peso e de mensagem que foge às limitações de nossa cultura; vem do fundo do palco e se dilui ante nossa incompreensão.

A alma que ele temeu perder dilatou-se pelo refreamento das negações que tentaram obstruir seu poder de sintonia com planos muito acima da compreensão humana.

Aquele homem ergueu uma bandeira e, em vez de nos pedir socorro, trouxe-nos o socorro

com essa aula magna de abdicação, de renúncia; pode descansar em paz que o coração, por doente que esteja, está bem aberto às manifestações da alma.

Perder a Alma (Em 01/12/2006)

Na arte zen, um jovem samurai se dispôs a provocar o mestre; tanto fez e nada conseguiu; o mestre permanecia impassível; ao final de um dia, o provocador se retirou cansado e humilhado. Vieram os discípulos carregados de incertezas; como era possível suportar tanto! E disse o mestre:

- Se alguém chega até vocês com presentes, e vocês não os aceitam, a quem pertence o

presente?

- A quem tentou entregá-lo, respondeu um dos discípulos.

- O mesmo vale para a inveja, a raiva e os insultos. Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem o carregava consigo.

Pois é. Aquele homem se colocou no lugar do monge zen: veio a provocação e ele nos mostrou como reagir, abdicando da própria vida.

Parodiando Sócrates, quando a morte se aproximar desse homem, com certeza cobrirá o rosto com um véu, exercerá bem depressa o seu papel e bem depressa se retirará, inibida diante de tanta grandeza.

Deixemo-lo seguir que já nos deu aula de quietude interior, sem se abalar sob os acenos da própria morte.

Fernando Pessoa - Poema (Em 24/11/2006)

Agradeço à Professora Sílvia Saraiva o ter me mandado este poema do Cancioneiro de Fernando Pessoa:

Põe-me as mãos nos ombros...

Beija-me na fronte...

Minha vida é escombros,

A minha alma insonte.

Eu não sei por quê,

Meu desde onde venho,

Sou o ser que vê,

E vê tudo estranho.

Põe a tua mão sobre o meu cabelo...

Tudo é ilusão.

Sonhar é sabe-lo.

Fernando Pessoa (Em 24/11/2006)

Fernando Pessoa

Em princípio, percebamos os opostos em que o poeta conduz e assunto e a linguagem coloquial de uma leveza quase infantil que já se manifesta por este “beija-me na fronte...”; não é um beijo de apaixonado; é um beijo de quem deseja proteção, aconchego, ao tempo em que assume uma atitude quase cavalheiresca ante a mulher amada.

Essa condição de submisso é confirmada pela escolha que o autor faz com versos em redondilha menor, versos de cinco sílabas, bem curtos como se quisesse diminuir a distância que o separa da mulher e bem ao gosto dos poetas medievais.

Os opostos já se instalam na primeira estrofe entre uma vida vida em escombros e a alma insonte, inocente.

De um lado, a vida, esse desenfreado carrossel de acidentes que tudo transforma em “escombros”; do outro a pureza da alma que se propaga pela segunda estrofe e lhe permite enxergar além, onde os outros não alcançam, por isso “vê tudo estranho”. Então essa segunda estrofe, em vez de ser uma conseqüência da primeira, é sua causa porque aborda o que se passa na interioridade do poeta; essa mudança de ordem é percebida pela linguagem de quem tateia para alcançar algo no escuro, até que ele se manifesta, no terceiro verso como ser: “Sou o ser que vê”.

Na terceira estrofe, o poeta reitera seu pedido de contato com a amada apenas pela mão dela no tocar o cabelo dele, para novamente se enfronhar neste estado de consciência de que

apenas a ilusão é real; não a ilusão como a entendemos; mas apenas as realidades que estão além desta vida; pensar nelas é o ideal de sabedoria.

Nesta terceira estrofe o poeta confirma sua condição de estado de alma incólume do burburinho do mundo e um aspecto interessante se coloca em relevo.

O poema se compõe de três estrofes: a vida no plano da matéria, pelas palavras “ombros”,

“fronte”, “escombros”; na segunda estrofe o poeta se refere a sua procedência desconhecida, diz-se um “ser que vê”, mas “vê tudo estranho”.

Os opostos se conciliam na consciência de que tudo é ilusão; um grau de iluminação com que os contrários se conciliam.

Ainda nos é possível deduzir que essa mulher é interior: está no plano da matéria para lhe colocar as mãos sobre os ombros, acobertá-lo e está no plano da consciência para infundir-lhe os pensamentos; com ela ele transita pelas duas dimensões de seu ser.

Um poeta é grande quando seus versos lidam com as duas dimensões do ser humano, independente do assunto de que trata; sua obra resiste o tempo; traz em seu bojo sêmens de criar raízes na interioridade do leitor.