quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Por que não falamos de Inferno 3/3 (Em 06/04/2007)

A história daqueles discípulos que queriam saber de seu mestre o que é o céu, o que é o inferno. O mestre contou-lhes que dois povos viviam separados por um fosso; em um dos lados, havia grande plantação de arroz; as pessoas possuíam grandes garfos; cozinhavam o arroz, mas o tamanho dos garfos não permitia que levassem à própria boca e todos passavam fome.

- isso é o inferno, disse o mestre.

Do outro lado, os habitantes também plantavam e cozinhavam o arroz, só que punham as porções nas bocas uns dos outros e todos se alimentavam.

- isso é o céu, disse o mestre.

Nós também temos dentro de nós o outro; o outro está dentro de nós; se atuando voltados apenas para fora, podemos fazer de nossa vida um inferno, por que não alimentarmos o outro e darmos a ele oportunidade de nos alimentar também?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Verdade I (Em 31/03/2007)

O que é a verdade? Essa pergunta Pilatos fez e Cristo não respondeu; sabia mais que responder; sabia ainda que o outro não ia entender; e por que não ia entender? Exatamente porque a verdade é patrimônio de um conjunto de habitantes que freqüentam a própria interioridade.

Se ainda hoje temos dificuldade em entendermos esses assuntos de dentro, imagine-se como seriam embotados os de dois mil anos atrás!

A verdade é um dos quatro atributos da alma: sabedoria, verdade, justiça e amor; os três outros são aplicáveis de pessoa para pessoa, uma ou mais; no entanto, a verdade é individual, pessoal.

Verdade é o perfeito ajustamento entre o que eu penso e o que eu digo.

Quando queremos nos exprimir, primeiro nos auscultamos, depois falamos. O processo é muito rápido e não nos percebemos interiorizando-nos, à busca de ajustar o que queremos dizer à verdade de dentro. A verdade está em nosso íntimo como a raiz de uma planta; ela, a verdade, no entanto, se serve a exprimir-se de acordo com a formação de cada pessoa porque, apesar de ser única, ajusta-se à visão, à formação com que cada um enxerga uma realidade.

Um corpo que cai é um fato e cada um analisa a queda conforme sua verdade: um calcula a velocidade, outro a atração da terra, o outro, o impacto, outro causas sociais, econômica e tantas outras; o último recomenda o corpo ao descanso eterno e cada um se ateve a sua verdade.

Se a verdade é o perfeito ajustamento entre o que eu penso e o que eu digo, eu não digo a verdade quando sonego o saber a alguém; sonegar o saber a alguém é impedir que o espírito do outro se desenvolva, de tal modo que, quando eu sonego um saber, eu me torno responsável pela inconsciência dele.

Verdade II (Em 31/03/2007)

Um aspecto não menos interessante é que a verdade não se manifesta sozinha; ela precisa de algo concreto com que fazer oposição; ela permanece como sustentação de qualquer fato: histórico, lendário, mitológico e outro. Diríamos que ela faz lastro para que um acontecimento ganhe durabilidade no tempo. Nessa condição de lastro de um fato os advogados se apóiam para defenderem seus causídicos, cada um analisando o mesmo fato sob prisma diferente e é tão verdade o que dizem e em que se apóiam que leva os jurados a decidirem e o juiz a deliberar.

Há muitas mensagens na Internet, imbuídas de uma verdade que encontra sintonia em nós; a verdade do escritor desperta a verdade no leitor.

No avião o garotinho folheava revistas; súbito uma pene; correrias, salva-vidas, pavor; o garotinho entretido com as revistas; a senhora do lado lhe perguntou apavorada:

- você não tem medo dessa situação!

Ao que ele respondeu:

- não. Meu pai é o piloto.

Havia, no garoto, fé, confiança, certeza.

O pai era o aviador; o pai não erra; o pai é perfeito.

Resta saber se temos a mesma relação com o Pai, a ponto de nos despreendermos da própria vida ante um perigo dessa dimensão.

A verdade não está no fato em si; a verdade está em nós; a verdade está nos dispositivos internos de que dispomos para nos defrontarmos com o fato. A verdade está no perfeito ajustamento do que eu me proponho fazer e o cumprimento dessa proposta: se eu me proponho arrumar a cama ao levantar e, por negligência deixo de o fazer, isso é contrário a minha verdade.

Toda negligência é contrária à verdade pessoal; por isso Cristo diz: “faze depressa o que tens de fazer”! Nós pensamos que ele está falando com o Judas; mas ele está nos advertindo que também nós traímos a verdade quando negligenciamos nossos compromissos.

Verdade III (Em 31/03/2007)

Sobre a verdade, encontrei este excerto: “Conhecer esteticamente uma língua é sondar-lhe fundo as riquezas, é senhorear-se de suas virtualidades, é sentir-lhe a harmonia interior, é perceber-lhe a plasticidade, é poder dominá-la como instrumento de arte“. Rui Barbosa.

Rui se refere a um ponto crítico do domínio estético de uma língua que é sua semântica. Rui Barbosa se refere à catalisação semântica que devemos aplicar a cada texto.

Ele se refere a “riquezas”; elas são oriundas da verdade com que o autor trabalha seu texto; a nós compete o esforço de sintonizá-la, já que somos depositários da mesma verdade que ele.

A Semântica se ocupa da significação das palavras, na transcendência da linguagem;

A Semântica promana exatamente daquela verdade que habita no interior de cada um, e permanece na intenção do autor, mas transparece no texto, daí a necessidade de “sondar-lhe fundo as riquezas”. Rui se refere exatamente a esse fundo de verdade ao qual precisamos descer e de lá extrairmos aquilo de que o autor estava imbuído e que não mencionou.

Auto Ajuda I (Em 23/03/2007)

Ouvi críticas acerbas aos os livros de auto-ajuda; eles são desprezíveis, algo não científico, portanto não merecem fé.

Assim se bloqueia a mente alheia. Como se a razão tivesse solucionado nossa sede de interiorização.

Não defendo os livros de auto-ajuda; preocupo-me com a mente humana, na busca de se desenvolver.

Os livros de auto-ajuda conduzem o ser humano para dentro de si mesmo; eles não são de espiritualidade, mas conduzem a mente para onde a espiritualidade se realiza; o que muda é a intenção.

Por trás dessa rejeição, há uma esperteza; uma forma bem urdida de manter a mente coletiva no atraso. Isso convém ao comércio. Saiamos dessa!

Vivemos do lado ocidental do mundo e, deste lado, tudo deve ser racional, científico, demonstrável, concreto; se as afirmações de auto-ajuda não se enquadram nesses parâmetros, é condená-las pura e simplesmente.

O bom livro de auto-ajuda trata da interioridade humana pelas vias da razão e pela inteligência; pela razão apresenta o fato; pela inteligência relaciona o fato com nossa realidade interior.

Se um livro, por medíocre que seja, contiver uma idéia que se possa aplicar, com proveito, na própria vida, esse já é recomendável; eles contêm dezenas de idéias e são recomendáveis sobremaneira.

Quer-se perpetuar essa permanência pelo lado de fora de nós mesmos, porque isso rende muito. É uma campanha surda e bem urdida que busca nos manter tacanhos no que diz respeito a nós mesmos; quanto mais ignorantes, melhor para o mercado.

Os orientais, apesar de recolhidos, meditativos, estenderam os tentáculos e se apoderaram de nossa industrialização; nós não podemos assimilar deles a educação pessoal, os costumes, sua cultura milenar; a mesma que os levou a discernirem o que era bom para eles e levar de nosso meio!

Auto Ajuda II (Em 23/03/2007)

Mas isso é irreversível: como tudo só se realiza pela equilibração dos opostos, sobretudo num mundo globalizado, nem o ocidente pode ficar com sua indústria secular, nem o oriente pode manter-se em seu repouso milenar.

Os costumes terão de se fundir e os livros de auto-ajuda vêm preparar essa fusão; eles vêm preparar a instalação dos costumes orientais entre nós, e não se pode negar que já estão ganhando corpo. Do mesmo modo que os orientais receberam inclusive a fórmula I que é o máximo de movimento, barulho, ausência de repouso.

Parece até que eles foram mais maleáveis do que nós, porque crescem a olho nu; nós não conseguimos sair do ranço, das olheiras que obliteram nossa visão.

Dizer que os livros de auto-ajuda não são recomendáveis é se colocar a serviço do capital (que expressão feia!); defender os interesses dos ricos que se tornam mais ricos à custa de nossa desinformação.

Já vivemos coisa parecida assim: lá pelos idos de meio século atrás, sobre o que se dizia da moça telefonista, da secretária; o ideal era ser professora. Talvez por ter se apoiado tanto em idéias de ocasião, o magistério esteja vivendo situações de risco e constrangimento.

O mercado está cheio de livros sobre educação; que educação nós construímos?

Todo pai, toda mãe deveria ter de cabeceira, um livro de auto-ajuda com que aprender a ajudar-se e ajudar a criança ensinando-lhe pelo menos uma técnica qualquer de interiorização. A falta de interiorização cria a insensibilidade; daí para a violência é uma questão de meio, de ambiente. A interiorização não é monopólio desta ou daquela cultura; a interiorização é condição do ser humano. Os livros de auto-ajuda trazem normas de alcançarmos, com mais objetividade, aquilo que grita dentro de nós. Se continuarmos a rejeitar os livros de auto-ajuda, estaremos acomodados no colonialismo do pensamento, sem nada fazermos pela própria liberdade de pensar. É importante que se reflita sobre a possibilidade de os livros de auto-ajuda conterem a parte que nos falta.

Auto Ajuda III (Em 23/03/2007)

Já contei sobre o índio e seus dois cachorros; um bonzinho, manso; o outro agressivo e mau humorado e que viviam sempre brigando. Certa vez, alguém perguntou:

- qual dos dois vencerá?

A que o índio respondeu:

- aquele que eu alimentar mais.

Nós estamos alimentando nossa desinformação, nossa insensibilidade; é claro que ela prevalecerá, entre nós, sobre a outra. O pior é que a outra não se contenta com migalhas e se alimenta furtivamente da parte mais substanciosa, enquanto nós continuamos admirados com o porte de nosso cachorro; como naquela história: o mestre aponta para a lua e o discípulo olha pro dedo.