quinta-feira, 29 de abril de 2010

Sonho II 3/3 (Em 08/11/2007)

Com base no que escrevi sobre o sonho, a Isabela Falcão me escreveu que tem sonhos persistentes e insistentes, ela “transportando gatinhos mortos de uma caixa para outra; a sensação é estranha”, diz ela; não sabe encontrar a forma de escrever, dada a quantidade de pormenores que envolvem o acontecimento. 

Ela diz ainda que pretende fazer vestibular e está indecisa quanto à opção; parece que o vestibular é a causa de seus sonhos.

Ela carregando as caixas = as diversas opções que tem em mente;

As caixas contêm gatinhos = os vestibulares são apenas gatinhos fáceis de conduzir.

Os gatinhos estão mortos = aqui temos duas idéias:

- as opções dela não correspondem à realidade íntima.

- o vestibular é tão inofensivo quando os gatinhos mortos; qualquer opção a que se decidir será como se diz “galinha morta”, moleza.

Essas afirmações são apenas sugestões; seria preciso um encontro pessoal, quando se podem analisar diversos outros fatores como: tom de voz, posição na cadeira, contrações de face, utilização das mãos e tanta coisinha assim que só o contato pessoal pode apontar.

Creio também que o inconsciente está apressando a ela que decida o quanto antes por uma carreira; tudo indica que a moça é muito inteligente porque o sonho está mostrando que os gatinhos, apesar de felinos, não oferecem perigo: estão mortos.

Esse tipo de sonho indica também que a pessoa está praticando coisas inúteis; está ociosa, está vazia; algo do inconsciente está indicando que suas atividades estão sendo dirigidas a esmo; não atendem sua vocação; em uma pessoa assim, o inconsciente está pedindo uma ocupação construtiva para ela; por exemplo: uma leitura sobre a própria espiritualidade, uma meditação

Sonho 1/3 (Em 01/11/2007)

Se o sonho vem de alguém, só pode ser por projeção do que acontece na psique desse alguém. Os sonhos são impulsos de coisas que estão embutidas em nós.

Como a psique não tem linguagem própria, ela se utiliza de imagens para retratar o que se passa em nosso interior.

Sonho que minha mãe está morta, se vejo minha mãe morta, não é minha mãe que está morta; aquela imagem é a representação de algo que está morto em mim; algo que eu prezava tanto quanto minha mãe. Diante do sonho, eu tenho de procurar, dentro de mim, qual é o ideal que eu estou matando.

Creio que já escrevi neste espaço sobre as vozes internas, aquelas que nos instigam a toda espécie de violência, frustração, derrota ou nos colocam vaidosos acima dos outros.

Os sonhos são o prosseguimento dessas vozes durante o sono; o agente é o mesmo: nossos traumas. Como foram incutidos em nós em circunstâncias diferentes, possuem cada um sua forma de se expressar; essa confusão que eles fazem por se exprimir é que causa a desordem no sonho, expresso sempre por pedaços incoerentes que nós tentamos decodificar, embora isso não adiante.

Se você interpreta o sonho, você permanece na linha do sonho, fica preso às imagens e não desce ao inconsciente; se você escreve ou se conta seu sonho a alguém, você vai descendo ao próprio interior procurando a palavra exata e exprimir o que se passou; nessa descida em função do sonho, você se abre e dá ensejo a que, pelo menos um dos traumas causadores do sonho venha à tona. Você faz a catarse.

Escrever, com pormenores, sobre o que aconteceu no sonho é a melhor forma de se aliviar dele.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Cônica - 2/3 (Em 01/11/2007)

Pois é; a danada da garcinha espera o sol do meio dia, abre as asas sobre a água; o peixe vem aproveitar da sombra e ela se aproveita do peixe. Estranha natureza que estimula a sacanagem até entre as aves! Quem já viu coisa mais suja! Quer mais? Essas cenas acontecem onde existe lago... O bichinho ganha lugar, abre o chapeuzinho e se alimenta do suco da água no escurinho. Qualquer semelhança é mera coincidência... De quando em quando aparece um flamingo pra interromper a esperteza. Ah! Você já meteu na cabeça que eu estou fazendo alusões! Nada disso; estou me referindo apenas a esses pássaros despudorados que a natureza põe em certos postos no exercício da vigarice.

Ao meio dia é o momento do vazio entre dois tempos; o pássaro usa esse expediente ao meio dia porque sabe que o peixe está na inocência do momento. O peixe está como hipnotizado pela luz do sol, no vazio do momento. Nessa hora a malícia se levanta até dos pássaros para se aproveitar dos incautos. Depois você vem dizer que é a lei do mais forte. Não, que os dois não medem força; a lei ali é de pura emboscada. Cachorrada até não caber mais lugar para tantos cachorros...

Bílis Negra - 3/3 (Em 01/11/2007)

A senhora Hérika teve a gentileza de apontar uma causa para essa tendência de as pessoas negligenciarem atenções mínimas a outras, mesmo que sejam estranhas. D. Hérika se baseou em meu artigo sobre gestos.

Não seria isso resultante de um sofrimento embutido, um “sofrer da bílis negra, não será essa a tendência do mundo após o renascimento”?

Percebamos dois aspectos no questionamento da senhora Hérika:

- ela não situa o tempo em que teria começado a tal “bílis negra”;

- ela aponta um tempo inicial em que essa tendência se introjetou na psique humana: após o

Renascimento.

Sobre a bílis negra, já se encontram referências em Hipócrates (377 a.c), como elemento desequilibrador no comportamento das pessoas.

Fiquemos apenas com as possíveis causas e os respectivos efeitos que essa doença causa quando se aloja na pessoa humana.

Há uma certa lógica na pergunta porque, até o renascimento, a crença humana era teocêntrica, Deus como centro de tudo; veio o renascimento e, com ele, o humanismo; o homem como centro de tudo; o conflito foi tão grande que deu início a uma nova tendência nas artes: surgiu o barroco que é a exteriorização desse conflito.

Isso realmente mexeu com a cabeça de muitos; tanto que o período seguinte é o neoclassicismo: os sábios procuravam viver no campo para fugir do burburinho da cidade; em seguida começa o cientificismo e a idéia de Deus ficou relegada.

É natural que essas opções tenham causado uma certa fleuma, na medida em que mais os ideais da cultura se afastavam de Deus; é natural que algo tenha se incrustado como ferida, mesmo que seja na psique, no inconsciente e de que tenha resultado esse centrar em nós mesmos, indiferentes aos demais.

Outro aspecto não menos relevante é que essa bílis negra se aloja no baço; o baço se situa no meio entre dois pontos de luz; se não forem ativados, no estômago e no coração, não há como neutralizar as manifestações desse humor. O ponto do estômago se relaciona com a trituração; o ponto do coração se relaciona com a intuição. Desses dois pontos não ativados, surge, uma certa melancolia, indiferença, nostalgia, saudade de algo indefinido que repercute em nosso comportamento sempre voltado para nós mesmos, indiferentes aos circunstantes e às circunstâncias.

Estou tentando apontar uma causa; não estou justificando um defeito que estamos no dever de corrigir em benefício de uma vida melhor no convívio de nossos semelhantes.

Noite Escura - 1/3 (Em 25/10/2007)

Não sei se já falei sobre a noite escura. Essa expressão apareceu em uma revista, quando fazia referência à Madre Tereza de Calcutá e suas terríveis dúvidas sobre a existência de Deus. No entanto, a expressão vem de São João da Cruz, o poeta místico por excelência; ele é que usa essa expressão para significar uma dupla dúvida:

- Se valia a pena continuar submetido a tantas provações, inclusive dos próprios monges pelos quais foi raptado para lugar secreto, ermo, ao desamparo? Isso é noite escura, mas esses aspectos são externos.

A segunda forma de noite escura de fato acontece é no interior do místico e a coisa funciona mais ou menos assim: entre a mente e a Consciência de todos nós existem os traumas psicossomáticos: raiva, inveja, vingança, originadas por situações conflituosas. Esses valores constroem o máximo de obstáculos e bloqueiam a passagem da mente para a Alma.

Na literatura, esses traumas são representados por monstros com que o herói tem de lutar. A tentativa de passar por esses inimigos, as dúvidas que eles causam, em virtude de sua resistência, é que constitui de fato a noite escura: temos de lutar e não sabemos com quê.

Guimarães Rosa escreveu um conto em que um homem vai pescar num poço; à flor da água há uma cobertura de folhas secas; ele joga o anzol; quando o peixe fisgado vem, puxado pelo anzol, uma serpente debaixo da folhagem devora o peixe; os monstros não deixam que a luz chegue até nós. Entre nós e os peixes está o monstro impedindo o êxito de qualquer iniciativa nossa. Se fisgarmos algum peixe, se tentarmos descer com a mente à consciência, os bloqueios não deixam a mente passar.

Noite escura é isso, multiplicada por mil; o místico se vê rodeado de tanta incerteza que sua vida se torna um rodamoinho.

Costuma se dizer que a noite escura são as aflições da alma; se a alma é o que queremos alcançar, ela não pode se afligir com o que está fora de sua alçada; as aflições são do próprio sujeito que se questiona sobre a utilidade da vida que leva. Esse não conseguiu ainda furar o bloqueio que impede o destino à própria interioridade.

Dúvida - 2/3 (Em 25/10/2007)

Como é isso?

Eu sinto depressão, saudade e digo que estou com um vazio no coração.

O ideal do místico é esvaziar o coração.

Quem tem depressão é místico?

Como sair desta?

Toda depressão e suas variações são causadas por uma ausência; deseja-se que a tal ausência seja preenchida.

Toda mística é caracterizada pelo desejo de ausência; o místico procura estar ausente inclusive de si mesmo; o místico quer o espaço vazio.

O depressivo quer preencher aquele espaço; o depressivo sente o peso da solidão.

O místico quer quanto mais funda a solidão.

Deduz-se que o coração do depressivo não está vazio; está cheio daquilo que ele quer alcançar, está cheio de carências; o depressivo olha para si e tem dó de si mesmo.

O místico tira o olhar de si mesmo: fecha os olhos para entrar no repouso.

No depressivo predomina o movimento, a agitação.

No místico predomina o repouso; a meditação com que ponha o coração no ritmo do silêncio.

Por fim, o depressivo almeja o ter.

O místico almeja o ser.

Atualidade de Cristo - 3/3 (Em 25/10/2007)

A lei de causa e efeito é uma constante em nossa vida; aquele costume que vem dos antigos na base do olho por olho, dente por dente, mão por mão e outros, tem sua base nessa lei de causa e efeito; é uma lei da Física.

No Novo Testamento há uma afirmação que se enquadra no assunto: “os pecados contra o Espírito Santo não serão perdoados nesta nem na outra vida”. Parece difícil, mas apenas parece: pecar contra o Espírito Santo e iludir, induzir, enganar, trabalhar negativamente a mente do outro. Quem faz isso, enquadra-se na lei de causa e efeito; eu iludi aqui, essa ilusão voltou pra mim na mesma intensidade e o efeito fica em mim; mas ainda me falta reparar a causa.

O outro está desviado por minha indução; eu estou acumulando as conseqüências; levo isso para o outro lado, para o lado de lá; do lado de lá é o repouso; não aceita o lixo de que eu sou portador; terei de voltar para submeter-me à lei de causa e efeito e limpar tudo aqui.

Ocorre-me algo sombrio: dizem que certos parasitas só se desenvolvem bem no organismo da cobra; eles se inserem em alimentos de que o rato gosta; uma vez no estômago do rato, eles sobem pra a cabeça e orientam o bichinho na direção da cobra, como se fosse um ships. Por isso, vemos cenas de ratos sem reação diante do perigo; aqueles corpúsculos anestesiaram a mente do animalzinho.

Deve ser mais ou menos assim o que acontece com certas pessoas que se tornam tão apáticas de entregar seus bens aos espertos; pagam por reparação de uma esperteza cometida e esquecida em vida anterior. Seu “pecado” só agora foi resgatado, “perdoado”.

A lei é daqui; sujou a lei aqui, tem de voltar para limpar o que sujou.

Já imaginou o volume de ações neste sentido que se praticaram ao longo de milênios, sem correção na terra? Este é um dos aspectos que avolumam o inconsciente coletivo, cuja pressão a terra não está agüentando mais. Haja!