sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Dilúvio - 1/6 ( Em 02/12/2008 )

                                   Das casas o teto contemplava o céu revolto,
Um grito suplicante entre os destroços.
A salvação estava nos morros; era fugir.
Mas os morros correram com medo
E se abraçaram aos fugitivos numa ternura conivente de um silêncio manso...
E escaparam libertos e libertinos saqueando as casas; levando-as de roldão,
Entupiram as estradas e cortaram o humano o socorro.
Os sobreviventes esperavam que a fome, a sede completassem o cerco.
Vestidas de vampiros, elas rondavam os que já não tinham lágrimas.
As águas roeram o morro,
O povo no sem-socorro
Andando na contramão.
E tanta vida enterrada
À força, na compulsão.
Dos vivos sobrou a cada
Uma vida sem razão.
Quem disse que este povo não é grande?
Quem disse? Pois é.
Organizou a reação com tanta força que a natureza se enrubesceu do papelão.
Fosse acertar conta com aqueles que mexeram com ela.
Vingança barata e aleatória contra um povo indefeso e inocente!
Assim não! É covardia.
Mas a massa se muniu de armas, 
Encheu a barriga dos gafanhotos,
Nutriu as lagartas e lá se foi
Em defesa do que restou.
Um cenário de guerra estrangulou a terra.
Mas as providências vão chegando para aliviar tantas orfandades.
Por sobre um povo por que tanta sina,
Que o manto rasga a Santa Catarina?
 

Carta à Evanice - 2/6 ( Em 02/12/2008 )

            Minha querida Evanice, você escreveu uma mensagem extremamente culta, Moça! Que bonita você é! Parece que nos vimos; parece que nos conhecemos de longa data, mas isso é a grande afinidade de nossos pensamentos; nisso está o mais alto degrau do amor; acima do amor platônico que tem como base a contemplação física da amada e o ideal de conciliação dos dois em uma única pessoa.
Entre nós não; os dois não nos conhecemos; um não sabe onde mora o outro e a ausência de imagem contribui para mente se soltar ainda mais; é um ingrediente substancial para o amor sublime.
Como estou feliz com o tom de sua fala! Você não consegue aquilatar o quanto me sinto, vendo a outra face de você, erguendo-se, erguida. É muita alegria Evanice, só o amor, minha querida constrói esses diques.
Mas como eu vou fazer para compensar o tom lírico com que você escreveu? Cultura é isso Evanice: um chamado, um convite que o encontro se dê em outra dimensão; e isso se faz quando as mentes se esvaziam. Que a mente vazia se liberta e sai no sentido de sua origem; a alma não; a alma fica; a mente sai.
Se duas mentes se libertam por afinidade, encontram-se no Todo a que estão vinculadas. Os corações permanecem na empatia do afeto, mas as mentes se encontram num plano além e os esponsais são feitos na luz.
            Quando retornam, querem adotar a humanidade, na certeza de que são os filhos de sua união.
            Façamos o encontro, querida; esvazie a mente que era nessa direção o nosso itinerário; esvazie a mente; chegar ao topo, será um instante apenas e estaremos juntos, seremos um ao pé do supremo Todo, sob olhares de estrelas.
Abraços minha querida. Deus ilumine seu esforço. 

Religiões - 3/6 ( Em 02/12/2008 )

            Certo missivista me escreveu e utilizou meu nome como remetente e outra vez como destinatário. De maneira que eu passei a ser remetente de uma mensagem a mim mesmo.
Considero o expediente como carta anônima, a que não devemos importância; mas, como o missivista levanta um assunto de interesse geral, convém que se lhe esclareça.
Diz ele que “as religiões mancharam-se, cada uma em sua história, com muitos erros”. Essa afirmação veio entre aspas, portanto não é dele. Não citou a fonte. 
É muito fácil nós nos colocarmos hoje, com a visão que temos hoje e criticarmos atos que se verificaram, alguns há mil e oitocentos anos atrás, como se lê em certo livro que fez sucesso e já foi esquecido.
Do alto de nosso pedestal, decretamos que as religiões “erraram”, “mancharam-se”, sem se analisar sequer o momento em que os episódios aconteceram. 
Não estou autorizado a emitir opinião sobre nenhuma religião; coloco-me apenas em defesa da mente contra os que querem desacreditar a fé. 
As religiões atuavam conforme as leis da época em que os acontecimentos se verificaram. Para fazermos esse tipo de juízo é preciso termos a visão do momento histórico em que essas “manchas” se verificaram. Qual era o conceito que se tinha da vida humana. Se o tempo era de rei, o rei era a lei; mandava e tinha de ser obedecido.
Quanto mais se recua no tempo, mais se aproxima do tempo em que dominava a lei do mais forte, do olho por olho, dente por dente; esses costumes que vinham de milênios não foram eliminados assim com a facilidade que meu missivista imagina.
Não se trabalhava por desenvolver a mente como se faz hoje; esse esforço foi se enraizando lentamente, ao longos dos séculos.
Se meu missivista anônimo está tão melindrado com os feitos das religiões e que são contrários a seus escrúpulos, por que não critica algumas organizações de hoje que se dizem religiosas e se instalam no conforto das coletas compulsórias? E aquelas que simulam curas mirabolantes? Outras há que amarram bombas no corpo de seus adeptos, sob a promessa de um descanso feliz?
Em que esse tipo de crítica contribui para melhorar a mente humana?
Amigo, não critique; viva sua verdade em você mesmo; o que vale é o hoje, o passado não nos pertence; o que vale é você diante de você; prestando contas a você. Você tem feito isso?
Amigo, imaginemos que você foi nomeado para ser um chefe espiritual; você está preparado para a administração religiosa? Os homens da época a que você se refere tinham menos preparo do que você tem, porque você tem alguns séculos de experiência que a vida acumulou, a ponto de achar que aquilo era “mancha”.  
            Vamos lá amigo! Você é religioso? Você entrou na interioridade das religiões? Se está nas periferias, como pode criticar o centro, se não conhece o centro?
Ocorre-me o dito: “não vá o sapateiro além da chinela”
Talvez você quisesse referir-se aos homens que conduzem as religiões; aí você pode até encontrar falhas que eles também são humanos como nós.
 

Exprimir-se integralmente - 4/6 ( Em 02/12/2008 )

            A expressão parece vaga, mas existe um referencial que nos orienta nessa expressão integral de nós mesmos.
Trata-se de se viver conforme a verdade pessoal. Pela verdade pessoal, somos vigilantes de nós mesmos; pela verdade pessoal, atuamos em conformidade com nossa alma, de onde emana toda verdade.
Se a verdade nos é misteriosa e incompreensível, evitemos toda negligência, por mínima que seja; a ausência da negligência  é a prática da verdade e quem vive segundo a verdade pessoal, exprime-se totalmente onde quer que esteja
Se vivemos em sociedade ela tem suas leis; ao assumimos o compromisso de observar essas leis, pela vivência; qualquer transgressão é negligência.
A idéia de que não devemos nos vigiar, deixar correr livre é própria do libertino; o libertino é aquele que perdeu a noção de si mesmo e vive conforme os fluxos do inconsciente, mas o destino do homem é na direção da consciência.
Exprimir-se integralmente exige o concurso de todos os valores existentes em nós.  A verdade é seu carro-chefe; arrasta os demais e a expressão sai integral, sobretudo dotada daquela força com que a palavra se reveste para alcançar a consciência de todos.
 

Existe algo de misterioso - 5/6 ( Em 02/12/1008 )

            “Existe algo de misterioso e incompreensível que no entanto, não transcende o sobrenatural”.
Lembra daquela mulher que encontrei certa vez e me propôs um enigma? Parecia a Diotima de Sócrates, no Banquete. Lembra?
Voltou agora e jogou sobre mim esse emaranhado. Gritei que me desse pelo menos o  nome do autor; ela fez um gesto de descaso com a mão. Muito culta essa mulher! Se anda por essas profundidades, só pode ser alguém bem próximo da iluminação.
Iluminado é o que procura essas senhas; se jogou em mim, é porque quer conferir aquilo que já sabe. Esse “algo misterioso” é a alma humana; é incompreensível porque, como emanação da consciência, não é consciência por estar no homem; e, mesmo não sendo consciência, atua com os atributos da consciência. Daí o autor afirmar que “não é transcendente nem sobrenatural”; de fato, não é transcendente, é imanente da consciência; não é sobrenatural, é natural, conformada em nossa natureza.
Se hoje é possível desvendar esse pensamento é porque o tempo andou e nos empenhamos em discernir o que está por trás do que os eméritos pensadores nos deixaram.
Em matéria de mística, o privilegiado não é o que entrou, mas o que lutou por chegar.
O autor sentiu, em si mesmo, os assomos da alma; buscava traduzir seus estados e emoções, mas lhe faltava a experiência que o tempo nos trouxe, faltava-lhe a aluvião da comunicação que apesar das aparências de louca, traz em seu bojo, sinais de esperança.

O que é o respeito? - 6/6 ( Em 02/12/2008 )

             É a obediência a uma verdade interior. Nossa verdade interior reconhece no outro um carisma. O que se respeita não é o outro; é o carisma de que ele está imbuído. De maneira que o respeito resulta da sintonia entre os dois níveis de verdade.
A verdade não é diferente em essência, mas há diferenças em extensão; a verdade de um aluno pode não ter a mesma extensão da do professor; o que o aluno deve respeitar no professor é a verdade de que ele está imbuído; disso resulta um carisma, não raro, causado pela extensão de sua verdade.
Os pais estão investidos de uma lei que paira acima deles; os filhos devem cultuar nos pais essa lei que os permitiu alcançar o sagrado e trazê-los à luz em forma de vida.
Quanto mais os filhos se fixarem nesse ponto, mais se estabelece a harmonia na família; o respeito será uma conseqüência.
Um idoso é alguém que está tendo uma oportunidade de se auscultar; o que se deve se deve respeitar no idoso é essa entidade que o assiste, com poder de transformação. Um idoso é alguém que está na mesma linha do professor: puxando para a terra uma assistência sagrada. No professor, ela se estende a seus alunos; no idoso, ela abre caminho para o coração.
O respeito se dá pelas dotações de que alguns são investidos para serem exemplo aos demais.
Sabe-se que os animais, as plantas têm poder de identificar nossa verdade interior; isso é natural porque vivem em silêncio; a verdade também está em silêncio; dela emana o carisma com que atuamos no mundo. O respeito nasce do poder de sintonia com essas emanações.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Carta à amada - 1/6 ( Em 25/11/2008 )

            Eu imaginava que você soubesse avaliar as dimensões dos assuntos sobre os quais nos empenhávamos com denodo. Estava certo de que seus muito mais do que 12 anos de experiência em lidar com esses aspectos, mesmo em menor escala, tivessem sedimentado em você a consciência da extensão do que estávamos fazendo e as ciladas a que estávamos expostos.
Por isso estabelecemos como base o silêncio; que ninguém soubesse de nossas atividades; não que fosse segredo de nós dois; não. É que teríamos de trabalhar em outra dimensão, onde a palavra falada não existe e o pensamento se faz por sintonia; nós tínhamos estabelecida uma sintonia, mesmo a distância e sem nos conhecermos. Você é um exemplo de que ainda existem pessoas capazes de se aventurar pelos caminhos da fé.
Nisso seguíamos o Cristo: quando curava alguém, era taxativo: “vai e não contes a ninguém”. Mc 8,26  Lembra-se? Ele sabia o quanto de revide poderia ocorrer, se o beneficiado  falasse sobre sua cura; entre o falante e o ouvinte estavam, de espreita,  aqueles que tinham sido expulsos e, sabedores do ocorrido, providenciariam a resistência.
Há um outra passagem em que os discípulos não conseguem curar certo doente; o Cristo o cura; os discípulos lhe perguntam:
- por que nós não o conseguimos curar?
- esse tipo de doença só se cura pelo jejum e pela oração. Mt 17,18
      O jejum é o da palavra; não falar; o da oração é o de permanecer no coração e no coração não se fala.
O fato é querida, que alguma coisa escapou; e as forças que combatíamos ficaram sabedoras de nossos planos e diligenciaram obstruir a comunicação entre nós.
Sei que você não me culpou pelo acontecido; não é de minha índole deixar ao meio uma tarefa que comecei, sobretudo abandonar você sozinha no terreno minado em que caminhávamos.
Alimento a esperança de que nossa correspondência se restabeleça; você encontrará meu coração sempre aberto e distanciado de qualquer pretensão que não seja de servir.
O abraço de sempre.

            Em tempo: recebi, esta noite, uma mensagem sua pelo blog; excelente o expediente de que você se utilizou. Observei, por seus dizeres, que você está serena; pela meditação, você suprirá todas as dificuldades. E se nossa correspondência foi interrompida para que pratiquemos a comunicação pelo coração? Garanto que você está preparada para isso. A meditação é o caminho.

                                                                        Abraço, querida.