quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Estar livre de ansiedade - 5/6 ( Em 20/01/2009 )

A ansiedade é um desejo incontido por realizar; é preciso alcançar o objetivo, mesmo que seja pulando por cima de tudo; porém, superados os motivadores da ansiedade, outros aparecem e a satisfação se transforma numa miríade que não se completa por alcances concretos. Por que acontece isso? Porque queremos atender um valor que vem de dentro com soluções que estão aqui fora.
Pela interiorização, é possível livrar-se da ansiedade; a interiorização tira a mente do turbilhão de preocupações que nos cercam.
Na interioridade, formamos a consciência de que no percurso já está a chegada; ali não se conta o tempo; o lugar de chegada é onde estamos.
Na ansiedade, somos dependentes de uma solução externa; na interioridade, sabemos que a solução está em nós.
Lembra aquele índio? Ele dizia que tinha, dentro dele, dois cachorros; viviam sempre brigando. O grandão era barulhento; o outro pequenino, sempre quieto em seu canto, mas o grandão o provocava. Um dia alguém perguntou:
- qual dos dois vencerá?
            O índio respondeu:
- aquele que eu alimentar mais.
Esses dois cachorros são a ansiedade e a interiorização. Se nós alimentarmos mais a ansiedade, ela vencerá o cachorro menor e a nós também. 
O cachorro menor é nossa interioridade, mal alimentada; não cresce; não viceja; deperece por má alimentação. 
Viver apenas voltado para fora é como estar num mar revolto; as ondas surgem de todos os lados e nós perdemos a direção de nadar. 
Viver dentro de nós é como descer às profundezas dessas águas: ali não há de que ser ansioso; que o silêncio predomina em nossas camadas externa e interna; de quando em quando,
precisamos subir para o oxigênio e, aos poucos, até do oxigênio haveremos de abdicar no silêncio de tudo.

Satisfação - 6/6 ( Em 20/01/2009 )

Algo se completou e até pode se dizer que transbordou; o inesperado atendimento cortez de quem menos se esperava; o belo prato são fontes de satisfação que poderiam ser enumeradas ao longo de muitos exemplos.
A satisfação maior é sentida por nós quando nossas forças internas nos colocam acima dos limites costumeiros.
O atleta fica satisfeito quando seu esforço, sua concentração o levam a alcançar recordes inesperados. Ele sabe que forças maiores atuaram, paralelas a sua aplicação no ato de competir. Isso cria a satisfação de ter, não apenas superado todos os obstáculos, como realizado a tarefa de forma surpreendente, além de seus limites.
Estar satisfeito é isso: ir além de nossos limites com o esforço pessoal; fazer-se merecedor de uma interferência maior em nossa concentração.
A gorjeta que se dá ao garçom resulta de estarmos satisfeitos com seu atendimento; quanto mais satisfeitos, mais a gorjeta se distende e ele fica feliz; assim acontece com nossas forças interiores; quanto mais nos esforçarmos por extraí-las de nós, mais elas respondem iluminando-nos em atitudes que ultrapassam nossos limites. 

Cada um com sua quimera - 1/6 ( Em 13/01/2009 )

Casais desajustados
 São sinais fechados.
 Inquietas quimeras
 Diferentes esferas
Que a luz apagou.
Estrelas sem brilho,
Já se negam ao filho
Saíram do trilho.
Das juras de amor
Nas núpcias em festa
Na cabeça a dor,
Somente o que resta.
Signos intransigentes,
Mordidos, dementes.
Na briga, uma lança
Cravaram nos filhos
E a verdade dança
Que são empecilhos.
Os filhos no abismo
Entre deuses doentes
No olho do cismo
São filhos carentes
Filhos esquecidos
De deuses dementes.

"Há, em toda ausência, um reflexo do ser" - 2/6 ( Em 13/01/2009 )

De onde vem isso!
Do Bérgson talvez. Fundo esse Bérgson! Fala essas coisas por pura intuição e ficamos nós boiando nesse caldo quente de suas idéias. Pensando melhor, a afirmação refere-se ao vazio; quanto mais vazios formos de qualquer pensamento, mais o ser interior reflete sua vivência em nós. Esse esvaziar-se do pensamento será sempre consciente, por esforço próprio.
De maneira que essa "ausência" é a ausência de pensamento; quanto menos pensamento, mais nosso ser interior se reflete.
Quando se diz que mulher não pensa, está se exaltando uma qualidade dela: pensar é do mundo da memória, razão e inteligência; a mulher está na esfera da: sabedoria, verdade, justiça e amor. Pensar para a mulher é prendê-la à terra, à razão. Não lhe convém.
Voltando ao Bérgson, ele nos deixa transparecer seu desejo de que nos  desvinculemos de uma terminologia do oriente; ele nos fala sobre o mesmo assunto com palavras nossas, aqui do ocidente.
A ausência já é o silêncio interior de que tanto vimos conversando; a ausência é o despreendimento de tudo, quanto mais completo. É nessa ausência que o Ser habita.
Se a natureza produz coisas tão belas é porque está em silêncio; em comunhão com o Ser. Se nós fizermos o silêncio dentro de nós, o mesmo que está na natureza, seremos superiores a ela; faremos coisas mais belas do que a natureza porque, enquanto a natureza atua apenas com o polo do repouso, nós atuaremos com o repouso e movimento conciliados; nosso ser será de luz, refletindo-se nos corações em que haja afinidade. Seremos reflexos do Ser.

Crônica - Rapto no espaço - 3/6 ( Em 13/01/2009 )

Você viu? Até o universo virou larápio! Você viu? Roubou a caixa de ferramenta da moça! Rapaz, o que é isso! Nem no universo se pode confiar! Já não chega estragar os parafusos da nave que a moça teve de ir consertar, e ainda lhe tirou a caixa de ferramenta! Ou esse negócio de roer os parafusos foi pretexto para o assalto? Será que o universo está com o parafuso solto e precisava daquela caixa? Ou os homens foram levar parafuso a lugares sem rosca? É bem provável que seja isso a medir pelas coisas que estão acontecendo aqui embaixo.
Agora a terra deu de andar de barriga solta emporcalhando as casas e sorvendo as pessoas no maior despudor!  Se é pra se vingar, por que não procura as pessoas que mexeram com ela? Vai abrigando inocentes no escondido de suas cortinas de barro.
E se aquela caixa virar no espaço? Os parafusos caindo sobre nossas cabeças! Que traquinagem é essa! Quem deu essa liberdade pra natureza se fazer assim tão libertina! Mata nossos irmãos e nos ameaça lá de cima exibindo o troféu que arrancou de mãos distraídas com a caixa rutilando ao sol.
Agora vejo o universo exibindo o troféu brilhante lá na mataria do céu e os passarinhos assustados com aquilo passando. Nessa hora eu gostaria de ser Deus: pôr ordem nessa bagunça, acertar as bolsas de valores de onde tudo cai. Quem não caiu? Bem eu não!  Mas que a queda da bolsa vai cair sobre mim vai. Vai mesmo; é só esperar. 
Agora é que me percebo também com os pensamentos em desalinho; fico olhando para a caixa se afastando e vejo naquilo uma representação do que se afasta de mim quanto mais me embeveço com as coisas que os homens fazem acontecer como projeção deles mesmos.
Será que a caixa vira no espaço? Pregos, martelos, fitas, fios, parafusos ficam retidos ou se libertarão da caixa?
Não seria isso uma projeção de nossa vida? Essas coisas soltas como nossas ações, nossos pensamentos; a caixa se mantém alheia às diatribes do que acontece do lado de fora dela; já conosco, nossa inquietação reflete em nós mesmos! 
Será que a coisa vai ficar restrita a um acontecimento apenas? Minha preocupação é porque, quando alguma coisa se liberta de nós, vai se encravar em alguma cabeça distraída.
Veja essas bombas que estão caindo ali, lá do outro lado; creio que por distração nossa, elas estão se alojando na cabeça de crianças indefesas. Os parafusos já vêm soltos de séculos; se ficam no espaço, outro tanto de séculos podem dissolvê-los; se ficaram na mente humana, têm de cair e alvejar crianças; é um mal que o homem traz de suas origens.

Esteira rolante - 4/6 ( Em 13/01/2009 )

Você já subiu em uma esteira rolante? Não? Não perdeu nada. Que negócio mais sem graça! É o movimento sem movimento. Você percebeu? Quanto maior a velocidade, mais você se cansa. Só que... Não sai do lugar. Por isso é movimento sem movimento.
E não é assim com a vida de quem se prende ao movimento? Corre, corre e não avança, não sai do lugar! Para sair para um lugar diferente, seria preciso sair do âmbito do movimento porque, como se percebe, o movimento não nos tira do lugar.
A esteira nos mostra, em escala menor, o que faz a terra: gira, gira e não sai dali; é só saindo do movimento que nós nos deslocamos, que a terra também é uma esteira rolante em proporções invisíveis.
Virão os que dizem:
- não senhor! A terra tem dois movimentos: gira sobre si mesma e se desloca no universo.
E eu respondo na lata:
- então nós deveríamos imitar a terra: girar em torno de nós mesmos e nos deslocarmos em
  nosso universo interior.
E digo mais: nosso itinerário é bem menor do que o da terra: é só sair do movimento; ir na direção da imobilidade. A esteira só serve de referencial para mostrar como o coração está em repouso; a esteira apenas simula o movimento; nós nos iludimos com as aparências. Do movimento à imobilidade, são poucos os passos, mas vale a pena porque a paz ali é garantida, sem simulações, sem desvios. Quando dispensamos a esteira, o motor cessa em nossa mente; é o silêncio. 
Foi o Baudelaire quem contou aquela visão que teve de homens carregando enormes quimeras; coisas inúteis às costas; quando lhes perguntaram para onde iam, não souberam responder; o que levavam? Também não sabiam; tinham apenas a impressão de seguir, mas andavam sobre uma esteira; perdidos no movimento de si mesmos.

"De quantos são feitos os pensamentos"? - 5/6 ( Em 13/01/2009 )

Creio que o autor queria saber quais são as fontes de nossos pensamentos.
São cinco as fontes que acionam a mente; quatro delas são estranhas a nós mesmos.
Essas quatro são de domínio do inconsciente; ele é fonte de quatro direcionamentos de energia que vão ativar a mente: não é o espaço aqui de discutirmos essas fontes agora; voltaremos ao assunto.
Dou exemplo de um só deles: quando criança, eu vi meu pai sendo injustiçado. Eu me abri e a energia do susto, do medo, da humilhação, aquilo se inseriu dentro de mim; desde então essa energia quer sair de mim; como não consegue, acelera meu sistema nervoso; que acelera a mente; eu tenho sentimentos de raiva, vingança minha mente está sempre estimulada por esse canal a pensar assim.
Esse canal é o do psicossomatismo; e eu citei apenas exemplo de um de meus traumas;  imaginem-se outros traumas do psicossomatismo e os outros três canais de que tratarei em outra oportunidade; imagine-se a confusão a que a mente fica sujeita.
Outra fonte de energia que gera pensamentos é a alma, se houver ambiente de quietude; se o inconsciente estiver, pelo menos parcialmente controlado; a energia que vem da alma possibilita outro nível de pensamentos que são ensejados de acordo com as circunstâncias.
Como se percebe, nossos pensamentos estão nas mãos de assaltantes que invadiram a área de nosso repouso e ditam arruaças que a mente tem de exprimir.